Por que vale ter um roteiro fixo

Toda anamnese psiquiátrica cumpre duas funções que competem por tempo. A primeira é narrativa: reconstruir a história de uma pessoa com o vocabulário dela, na sequência em que ela viveu os fatos, sem achatar o caso em rótulos. A segunda é documental: produzir um registro em que a ausência de um dado significa alguma coisa, e em que outro médico, semanas ou anos depois, encontre a informação onde espera encontrá-la.

Um roteiro fixo é o que permite atender as duas. Se a cobertura das seções está garantida pela estrutura, a atenção do médico fica livre para escutar em vez de conferir, e a leitura por terceiros deixa de depender do estilo de quem escreveu.

O modelo abaixo segue a estrutura clássica ensinada nas escolas médicas brasileiras, com as seções que a psiquiatria acrescenta ao roteiro geral: história psiquiátrica pregressa detalhada, uso de substâncias, exame do estado mental e avaliação de risco. Ele é um lembrete de cobertura, não um questionário para ser lido em voz alta.

O modelo, seção por seção

Copie o bloco a seguir para o seu prontuário eletrônico ou para o seu editor de texto. Cada item é um campo a ser preenchido ou explicitamente marcado como não avaliado. Nenhum deles precisa de mais que uma linha.

Identificação

  • Nome ou iniciais, idade, sexo, estado civil, escolaridade e ocupação atual
  • Cidade, com quem mora e quem sustenta a casa
  • Quem encaminhou e por quê; quem acompanha a consulta
  • Data e modalidade do atendimento, presencial ou por telemedicina

Queixa principal

  • Motivo da consulta em uma ou duas frases, entre aspas, nas palavras do paciente
  • Duração do problema tal como o próprio paciente a define
  • Quando a demanda parte de terceiros, de quem parte e o que essa pessoa espera

História da moléstia atual

  • Início: quando, de forma abrupta ou insidiosa, e o que acontecia na vida do paciente naquele momento
  • Sintomas em ordem de aparecimento, com intensidade, frequência e duração
  • Fatores precipitantes, de melhora e de piora
  • Sono, apetite, peso, energia, concentração e libido
  • Prejuízo funcional em trabalho, estudo, casa, relações e autocuidado
  • Tratamentos tentados neste episódio e a resposta a cada um
  • Episódios semelhantes anteriores e o intervalo entre eles

História de vida

  • Gestação, parto e desenvolvimento neuropsicomotor, quando relevantes
  • Infância, escolaridade, repetências, adversidades precoces e violência sofrida
  • Adolescência, sociabilidade, identidade e vida sexual
  • Trabalho, renda, moradia e estabilidade material atual
  • Relacionamentos afetivos, filhos, lutos e perdas
  • Rede de apoio efetiva: quem o paciente procura quando piora
  • Religiosidade, valores e projetos, quando trazidos por ele

História patológica pregressa

  • Doenças crônicas, cirurgias, internações e traumatismo cranioencefálico
  • Crises convulsivas, doenças da tireoide, doenças autoimunes e infecciosas
  • Alergias e reações adversas a medicamentos, com a descrição da reação
  • Exames recentes relevantes, com data
  • Gestação, amamentação ou planejamento reprodutivo em curso

História psiquiátrica pregressa

  • Episódios anteriores, com data aproximada, duração e diagnóstico atribuído na época
  • Internações psiquiátricas: motivo, duração e desfecho
  • Psicofármacos já usados, com dose, tempo de uso, resposta e motivo da suspensão
  • Eletroconvulsoterapia ou outras intervenções
  • Psicoterapia: modalidade, duração e desfecho
  • Tentativas de suicídio e autolesão: número, método, contexto, letalidade e intenção na ocasião

Uso de substâncias

  • Álcool, tabaco, cannabis, cocaína, estimulantes, opioides, benzodiazepínicos e alucinógenos
  • Para cada substância: idade de início, padrão atual, quantidade, via e data do último uso
  • Sinais de dependência: tolerância, abstinência, perda de controle e tentativas de parar
  • Consequências clínicas, familiares, laborais e legais

Medicações em uso

  • Nome, dose, posologia e horário, incluindo as medicações não psiquiátricas
  • Fitoterápicos, suplementos e medicamentos usados sem prescrição
  • Adesão real, nas palavras do paciente, e o que a dificulta
  • Quem prescreveu cada item e há quanto tempo

História familiar

  • Transtornos psiquiátricos em parentes de primeiro e segundo grau
  • Suicídio na família
  • Resposta de familiares a psicofármacos, quando conhecida
  • Doenças clínicas de relevância hereditária
  • Clima e funcionamento da família de origem

Exame do estado mental

  • Aparência, atitude e contato
  • Consciência, atenção e orientação
  • Memória e demais funções cognitivas
  • Sensopercepção
  • Pensamento: curso, forma e conteúdo
  • Linguagem
  • Humor e afeto
  • Psicomotricidade
  • Inteligência e cognição global
  • Juízo de realidade
  • Crítica sobre o próprio estado

Avaliação de risco

  • Ideação suicida: presença, frequência, intensidade e caráter passivo ou ativo
  • Plano, método, acesso ao método e medidas preparatórias
  • Intenção declarada e fatores de proteção reconhecidos pelo paciente
  • Risco de heteroagressividade e situações de vulnerabilidade
  • Capacidade de autocuidado e necessidade de acompanhante
  • Conclusão explícita do nível de risco e a conduta que dela decorre

Hipótese diagnóstica

  • Hipótese principal com o código da CID-10 e, quando aplicável, os critérios do DSM-5-TR
  • Diagnósticos diferenciais considerados, com o motivo de manter ou afastar cada um
  • Comorbidades psiquiátricas e clínicas
  • Causas orgânicas e medicamentosas ainda a excluir

Conduta

  • Prescrição: fármaco, dose inicial, escalonamento previsto e efeitos adversos orientados
  • Exames solicitados e a pergunta que cada um pretende responder
  • Encaminhamentos, psicoterapia e articulação com outros profissionais
  • Orientações dadas ao paciente e à família, e a quem foram dadas
  • Plano de segurança, quando há risco
  • Retorno: prazo definido e o que será reavaliado nele

O que faz cada seção funcionar

Queixa principal: cite, não traduza

A queixa principal perde valor quando é traduzida para linguagem técnica na hora do registro. Não consigo mais levantar da cama e acho que estou ficando louca carrega informação que quadro depressivo apaga: a gravidade percebida, o medo do próprio funcionamento mental, o nível de linguagem do paciente. Guarde a citação e deixe a formulação diagnóstica para a seção de hipóteses.

História da moléstia atual: a cronologia é o argumento

É aqui que o diagnóstico se decide, e é aqui que a documentação costuma ficar mais frouxa. Uma lista de sintomas sem datas não distingue um episódio depressivo de uma distimia de duas décadas, nem um transtorno bipolar de uma irritabilidade reativa. Amarre cada sintoma a um marco temporal verificável: um emprego, uma mudança, uma gestação, o início de uma medicação. Se o paciente não sabe a data, registre a âncora que ele oferece.

Antecedentes psiquiátricos: dose, tempo e motivo da suspensão

Já usou sertralina e não funcionou não é um dado utilizável. Cinquenta miligramas por dez dias, suspensos por náusea, é uma informação que muda a próxima prescrição. Os três elementos que tornam a história farmacológica útil são a dose máxima atingida, o tempo em que ela foi mantida e o motivo exato da suspensão. Sem eles, um tratamento nunca tentado de fato pode ser descartado para sempre.

Avaliação de risco: termine com uma conclusão

Coletar dados sobre risco não é o mesmo que avaliá-lo. A seção precisa terminar com uma frase que diga em que nível o risco foi estimado naquele encontro e o que se fez a respeito, incluindo o plano de segurança, quem foi orientado e qual o intervalo até o retorno. Um registro que enumera fatores de risco e não conclui nada é o pior dos dois mundos: mostra que o tema apareceu e não mostra o raciocínio médico.

Exame do estado mental: descreva o observado

O exame do estado mental é a contraparte psiquiátrica do exame físico, e vale a mesma regra: registra-se o que foi observado, não o que se supõe. Cada domínio pede uma descrição breve em linguagem semiológica, e o que não foi examinado deve aparecer como não examinado. O passo a passo do exame do estado mental trata domínio por domínio, com exemplos de redação.

Erros comuns

Primeira consulta e retorno: o que muda

O modelo acima é o da primeira consulta, e é a única ocasião em que se percorre a história inteira. Nos retornos, a estrutura se inverte: o documento passa a ser curto, focado no intervalo desde o último encontro, e ancorado no que foi decidido antes. O que persiste em toda consulta é o exame do estado mental, a revisão de medicações e adesão, e a reavaliação de risco.

Trocar esses dois formatos é um erro frequente e visível no prontuário: retornos escritos como anamneses completas repetem história antiga e escondem o que mudou, enquanto primeiras consultas escritas como evoluções chegam ao diagnóstico sem os antecedentes que o sustentam. A distinção, com estrutura e exemplo, está em anamnese e evolução clínica.

Prontuário, telemedicina e IA: o que a regulação exige

A Resolução CFM nº 1.638/2002 define o prontuário como documento único, legível, identificado e cronologicamente organizado, de elaboração obrigatória para cada paciente. Na prática, é o que sustenta as exigências do modelo: identificação do responsável por cada registro, data em toda entrada e sequência recuperável dos atendimentos.

Quando o atendimento é remoto, a Resolução CFM nº 2.314/2022 mantém o mesmo padrão de registro e acrescenta a necessidade de consignar a modalidade do atendimento, motivo pelo qual esse campo consta da identificação. E a Resolução CFM nº 2.454/2026, em vigor desde 26 de agosto de 2026, trata do uso de inteligência artificial na medicina: sistemas de IA são apoio, a decisão clínica permanece com o médico, e o conteúdo produzido precisa ser revisado e assumido por ele antes de integrar o prontuário.

Em paralelo, a Lei 13.709/2018 classifica os dados de saúde como dados pessoais sensíveis. Isso pesa na escolha de onde o texto é redigido e armazenado, em quem tem acesso e por quanto tempo, e em como consentimento e finalidade estão documentados.

Como a Psiq ajuda

A Psiq grava a consulta, transcreve o áudio e devolve uma anamnese estruturada nas seções deste modelo, com o exame do estado mental e a avaliação de risco separados para revisão. O texto sai como rascunho: o médico edita, corrige o que a transcrição entendeu mal, completa o que não foi dito em voz alta e só então leva para o prontuário. A responsabilidade pelo conteúdo continua inteira com quem assina, como a resolução de IA exige. O que muda é o tempo gasto transcrevendo à mão o que já foi dito na consulta. A versão psiquiátrica do fluxo está descrita em anamnese psiquiátrica com IA.

Perguntas frequentes

O que não pode faltar em uma anamnese psiquiátrica?

Identificação, queixa principal nas palavras do paciente, história da doença atual com cronologia, antecedentes clínicos e psiquiátricos, uso de substâncias, medicações em uso, história familiar, exame do estado mental, avaliação de risco, hipótese diagnóstica e conduta. Na prática, as duas seções que mais faltam são o exame do estado mental e a conclusão explícita da avaliação de risco. São também as duas mais difíceis de justificar depois, porque delas decorre a conduta.

A anamnese precisa seguir sempre a mesma ordem?

A ordem da conversa não precisa seguir a ordem do documento. É comum começar pela queixa, deixar a história de vida para o meio da consulta e voltar aos antecedentes quando o vínculo já está formado. O que se recomenda manter fixo é a ordem do registro escrito, para que outro médico encontre cada informação onde espera encontrá-la.

Qual a diferença entre anamnese e exame do estado mental?

A anamnese é a história relatada: o que o paciente e seus acompanhantes contam sobre o que aconteceu e quando. O exame do estado mental é a observação do médico durante a consulta, no presente, com a mesma função que o exame físico tem em outras especialidades. Um não substitui o outro, e a anamnese completa contém o exame do estado mental como uma de suas seções.

Posso usar inteligência artificial para redigir a anamnese?

A Resolução CFM nº 2.454/2026, em vigor desde 26 de agosto de 2026, admite sistemas de inteligência artificial como ferramenta de apoio, e não como substitutos da decisão médica. O médico permanece responsável por revisar, corrigir e assumir o conteúdo antes de ele integrar o prontuário. Em termos de rotina, isso significa que o texto gerado é sempre um rascunho, nunca um registro final.